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Uma perspectiva antropológica para descolonizar modelos hegemônicos

Atualizado: 1 de nov. de 2023

Anderson Lucas da Costa Pereira - Pesquisador da região Norte


Sou natural de Belém do Pará, mas moro em Santarém (PA), desde de 2010. Sou Artista Plástico, Mestre e Doutorando em Antropologia Social pelo Programa de Pós Graduação do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Museu Nacional/UFRJ) e possuo graduação em Administração com ênfase em Marketing, pelo Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA). Meus trabalhos dialogam com o imaginário amazônico, suas cores, saberes e crenças. Tanto o material, quanto o invisível são explorados. Minhas inspirações, enquanto artista e pesquisador, nascem das cores marcantes da Fauna e Flora, das vivências de ser, viver e sentir a Amazônia.


Busco analisar o comportamento do ser humano em sociedade, a organização social e política e as suas relações sociais e institucionais. Me dedico a entender os movimentos e estruturas sociais que os seres humanos estabelecem, centrando em fenômenos como: costumes, mitos, valores, crenças, rituais, religião, linguagem, e outros aspectos fundamentais na formação da cultura. Dentro do escopo da antropologia e com minhas habilidades em pintura e cenografia, busco refletir as manifestações culturais que nos cercam. Busco produzir uma arte etnográfica, pois meu esforço é acompanhar de perto os grupos que estou dialogando, vivendo e aprendendo com eles, por algum tempo, dentro da comunidade. A partir da observação do grupo social, minha escrita, pinturas, instalações e cenários são materializados, onde navego nas cores e objetos da nossa região, na tentativa de mostrar toda a versatilidade e fluidez da nossa gente, cabocla, ribeirinha e criativa da floresta, para expressar sentimentos profundos em sintonia com o local, o urbano e o atual.


Lembro de um fato que marcou uma de nossas férias, foi o dia que estávamos tomando banho de rio e fazíamos aquele alvoroço, gritando e pulando dos galhos do taperebazeiro. Árvore que ficava às margens do rio que em dias de maré alta utilizávamos como trampolim para saltar nas águas, mas meus avós e pais sempre diziam: “Olha, não fiquem gritando assim, vocês ainda vão acordar esse povo do fundo do rio”. Mas, a gente nem ligava, era aquela algazarra pulando nas águas. Numa dessas ‘pulações’ teve um dia que meu irmão gritou: “Égua! O que é aquilo boiando lá no meio?” Nossos olhos viraram para onde ele apontava e avistamos, saltitando e esguichando água para todos os lados, o famoso boto. Saímos nos debatendo das águas, minhas primas choravam e gritavam quase que ao mesmo tempo, os gritos foram tantos que mobilizamos toda a família que estava nessa hora finalizando os preparativos para o almoço. Minha avó veio: “Que foi já perquenos?”, e nós: “É boto! é boto!”, e ela: “Eu falei pra vocês não ficar gritando no rio! Ainda mais essa hora que é quase meio dia! Agora estão aí todos mundiados!”. No fim das contas, acabamos descobrindo que o boto tinha vindo atrás da minha prima mais velha que nesse dia tinha acabado de “virar moça”.


Expressões artísticas como reflexo da cultura


Em minhas obras trago a historiografia e as tradições das minhas lembranças, refiro-me à “memória” como a “história das tradições de nossas lembranças”, onde “tradições” tem o sentido de “trajeto”. Para mim, narrativas, listas de nomes e de coisas, histórias, mitos, cerimônias, relatos, bibliotecas, coletânea de objetos, imagens, enfim, tudo isso são ações e resultados de tradições das lembranças, assim como a tentativa de destruição dessas, quando se pratica omissões, abandonos e ocultamentos. Quando levo essas experiências para a produção de minhas obras, pretendo provocar no público uma série de reflexões, levando-os a perceber que existem ações combinadas dessas lembranças, movimentada por forças concomitantes, embora distintas, que agem sobre nós, refletidas em diversas etapas da nossa vida.


As minhas memórias fazem parte do “trajeto” das minhas lembranças, absorvidas em práticas de conhecimento vivenciadas com os meus pais e avós e sociedades em que já convivi. São forças presentes e atuantes, que através da arte posso expressar, uma linguagem que consigo abranger toda a complexidade de ser, sentir e viver a Amazônia.


A intelectual e escritora Conceição Evaristo aprofunda essa noção de “trajeto” quando leva essas experiências para a produção textual e afirma que existem ações combinadas dessas lembranças, movimentada por forças concomitantes, embora distintas, que agem sobre nós, refletidas em nossas produções, ou como bem denominou a autora são “escrevivências” (EVARISTO, 2006), ou seja, a escrita de um corpo, de uma condição, de uma experiência, que não devem ser abandonadas de nossas produções de conhecimento.


No “O que é lugar de fala?”, a filósofa Djamila Ribeiro discute o conceito de “lugar de fala”, cada vez mais presente nos debates de movimentos sociais. A obra é a primeira de uma coleção mais ampla, denominada Feminismos Plurais, cujo objetivo é trazer diversos temas abordados pelos feminismos de maneira “didática e acessível”. Apesar do objetivo de manter uma linguagem direta que evita termos excessivamente academicistas, o livro organiza o pensamento de uma série de autores e autoras, especialmente feministas negras, com o intuito de esclarecer os sentidos e finalidades de um conceito adequado de lugar de fala.


Escrevivências e lugar de fala


Bom, quando participei do processo de seleção para fazer parte da equipe de pesquisadores da Iniciativa PIPA, com o objetivo de mapear as ações empreendedoras do Brasil, focando principalmente, na população “minoritária”, “de margem”, e da “periferia”, a leitura que me veio à cabeça é de como seria essa pesquisa? Foi o lugar de fala, a pesquisa estava interessada nessas vozes constantemente silenciadas por uma política de apagamento praticada por boa parte daqueles que estão na cabeça das engrenagens do sistema vigente.


No entanto, não basta apenas identificar o lugar de fala, mas saber de onde se fala e o que se fala, e para tal, não me restou dúvida que para acompanhar também nessa pesquisa seria necessário segurar as mãos da dona Conceição Evaristo, pois além das Vozes e a geografia dessas vozes, seria primordial conhecer, ou melhor reconhecer, as vivências. Meu papel foi trazer essas “escrevivências” para a pesquisa. Diante das histórias que incomodam, a “escrevivência” quer justamente provocar essa fala, provocar essa escrita e provocar essa denúncia, para que mais na frente ela possa brotar em arte, poesia e esperança.


Trago essas informações, na qual eu também apareço, para mostrar e falar que tem muito de semelhante com as vivências presente nas respostas dos entrevistados que colaboraram com a pesquisa. Como o Coletivo Kitanda Preta que pela soma das forças e esperanças de mulheres negras de Santarém buscam alcançar independência financeira, e se expandirem para todo Brasil, pois acreditam ser uma via possível de transformação afroempreededora e cultural que pode revolucionar a vida de muitas outras mulheres.


E sem falar dos saberes dos nossos mestres e mestras de saberes, como o Mestre Chico Malta, músico, compositor, contador de histórias e principal nome do carimbó no oeste do Pará. Com uma vida inteira dedicada à cultura, é fundador do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará, tendo atuação determinante no processo de salvaguarda do carimbó, já gravou dezenas de músicas, participou do filme “Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios”, e antes da pandemia realizava, semanalmente, “A Quinta do Mestre e da Sereia”, em Alter do Chão, no qual mestres de carimbó locais se apresentavam de maneira gratuita para o público. Chico Malta também é reconhecido como Mestre Griô de tradição oral.


A pesquisa traz também as forças das Guerreiras Suraras. A Associação de Mulheres indígenas Suraras do Tapajós, atualmente, é formada por um grupo de aproximadamente 30 mulheres indígenas, jovens, solteiras, casadas, senhoras, curandeiras, estudantes, mães, militantes e ativistas pertencentes a diferentes etnias. Exímias artesãs, fabricam biojóias com penas, miçangas e sementes da região, grafismo corporal com jenipapo e urucum e artesanatos (arco e flecha, cerâmicas, grafismo em cuias, maracás), doces, cantorias, rituais de purificação, garrafadas e banho de ervas (medicinais). Diante de tantas demandas que surgiram através do reconhecimento da atuação direta do coletivo no movimento indígena e demais movimentos sociais, em 2018 elaboraram um planejamento estratégico com a definição da missão e metas de atuação, para nortear nossas ações com resultados mais satisfatórios. Em abril de 2018, surgiu o primeiro grupo de carimbó do Oeste do Pará composto somente por mulheres e o único do Brasil composto somente por mulheres indígenas, eram as Suraras do Tapajós mais uma vez colocando a figura feminina em evidência, mostrando que podem ocupar todos os espaços. O grupo de carimbó se tornou a partir de então mais uma valiosa ferramenta para dar voz à missão, alcançando espaços que talvez fossem mais difíceis de acessar senão através da música para passar suas mensagens. Além do tradicional carimbó de artistas paraenses consagrados, também apresentam músicas autorais no mesmo ritmo, além de composições em Nhengatu – língua geral falada pelos povos do Baixo Tapajós.


Para a pesquisa “Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil”, consegui 90 respostas e tive a seguinte percepção lendo muito das respostas colhidas, e é como bem fala a intelectual Carla Akotirene (2018: 15), “é oportuno descolonizar perspectivas hegemônicas”, ou seja, temos que adotar nossos corpos, de ser negro, negra, gay, pessoas trans, mulheres e homens indígenas, “como território das fontes de nossas histórias” e produção de conhecimento transformador que destronará o modelo decadente vigente que se perpetua nas sociedades. Nós temos que mostrar outros caminhos discursivos, basta nos escutarem, foi o que tentei aprender com esta pesquisa ao apresentar uma parte dos trajetos, memórias e experiências vividas dessas pessoas, ricas em criatividades e potentes em suas trajetórias.


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