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Resistência e construção: enfrentando desigualdades em Goiás

Atualizado: 1 de nov. de 2023

Agnes Santos - Pesquisadora PIPA da região Centro Oeste


Habitar o interior do país, em uma região dominada pelo agronegócio, é habitar uma terra que parece infértil. Mas, um olhar atento desvela uma região rica de cultura material e imaterial, de gente potente e sonhos forjados a foice e facão, como em boa parte do país, longe dos grandes centros. Olhar para as periferias (seja das grandes cidades ou do interior do país) é olhar para as mais diversas populações que constroem, todos os dias, muito além das riquezas materiais do nosso país. E é nesse contexto que as organizações da sociedade civil batalham para levar adiante seus projetos. Isso porque há poucas fontes de recursos, oriundos dos editais (públicos e privados), que no mais das vezes são pensados para contemplar as periferias e suas especificidades. Assim, ter a oportunidade de refletir junto com os coletivos acerca das barreiras que enfrentamos no cotidiano da captação de recursos foi de grande importância. Sabemos e debatemos em nossos espaços a dificuldade que os coletivos enfrentam a fim de se tornarem grupos formais regularizados e assim acessarem/captarem recursos de diferentes fontes. Contudo, o levantamento de dados é, até onde sei, uma iniciativa inédita no país.


A região Centro-Oeste do país, é uma região igualmente diversa e desigual. O Distrito Federal e sua capital Brasília, concentram uma grande quantidade de recursos, mas basta comparar Brasília e Ceilândia, tão próximas territorialmente, para compreender o abismo no acesso à recursos. Goiás e seus territórios quilombolas, acuados pela soja e pelo gado, sem falar de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com suas populações indígenas também acuadas pelo avanço das monoculturas. Mas, esse povo também é sonho, trabalho e resistência. E mesmo em um terreno que, a priori parece inóspito, frutificam iniciativas individuais e coletivas de construção de outras realidades, nas mais diversas frentes de trabalho.


Enfrentando as desigualdades


O campo da cultura tem batalhado já há muitos anos por avanços no acesso à recursos. A alteração nos editais da Agência Nacional de Cinema (Ancine), que preveem a obrigatoriedade de 40% de projetos aprovados para as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, é um exemplo do enfrentamento à desigualdade na distribuição de recursos entre as regiões do país. Ao olhar para os editais do estado de Goiás, a lógica se repete, uma vez que a maioria dos editais culturais publicados nos últimos anos também prevê a destinação de 50% dos seus recursos para a capital, sendo que todo o interior do estado deve disputar os outros 50%.


Além do acesso desigual aos recursos, várias organizações apontaram a dificuldade em regularizarem suas atuações, uma vez que muitos dos editais exigem não só um CNPJ, mas também tempo de atuação com esse CNPJ. O que encontramos em campo, foi uma série de agentes culturais que se organizam em grupos, mas que se apoiam em cadastros de Microempreendedores Individuais (MEI’s), em uma tentativa de se adequar às normas dos editais, mesmo que de maneira precária. Esse debate não é novo entre os trabalhadores da cultura, mas o levantamento de dados junto a esses agentes é uma empreitada ousada à qual a Iniciativa Pipa se propôs.


Outra importante frente de atuação no estado de Goiás, levantada durante a pesquisa, foi a agroecologia e a educação do campo, em especial das Escolas Família Agrícola (EFA). Como dito, o estado de Goiás é conhecido nacionalmente pela pecuária extensiva. De acordo com dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o estado detém o segundo maior rebanho do país. A região do noroeste goiano, com destaque para a cidade de Nova Crixás, concentra boa parte desse rebanho. E é exatamente nessa região que encontramos a Escola Família Agrícola de Uirapuru (EFAU), um pequeno município, distante cerca de 100 km de Nova Crixás. A escola existe desde 2004, tendo sido idealizada ainda em 1997 e é um reduto da Agroecologia em meio a pecuária extensiva. Como desdobramento do trabalho pedagógico da escola, parte de sua coordenação e corpo técnico produz alimentos agroecológicos que são comercializados na feira do município de Uirapuru e no distrito Vila Sertaneja, mostrando que é possível produzir alimentos e preservar o cerrado e a natureza, sem o uso de agrotóxicos.


A escola, já passou por diversas dificuldades financeiras, uma vez que até muito recentemente ela não era financiada pelo estado, sendo uma iniciativa comunitária que durante muitos anos foi financiada pela Igreja Católica. A falta de regularidade, mesmo com a existência de um CNPJ é um entrave na aprovação de projetos e captação direta de recursos. Recentemente, a Associação das Escolas Família Agrícola do estado de Goiás, foi reestruturada a fim de atender as diferentes escolas do estado, inclusive na elaboração de projetos.


São realidades como essas, que a pesquisa da Iniciativa PIPA mapeou e que integram um importante banco de dados, com experiências e organizações nas mais diversas áreas, nas cinco regiões do Brasil e que agora podem embasar editais e ações de filantropia que vão de encontro às reais necessidades do Brasil profundo, buscando diminuir desigualdades e valorizando as riquezas do nosso país, para além do que se apresenta nos grandes centros e no eixo Sul-Sudeste.

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