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Pesquisa PIPA: Potencializar futuros possíveis para as quebradas com mais oportunidades financeiras

Atualizado: 1 de nov. de 2023

João Mario Sales da Silva - Pesquisador da região Sudeste


As periferias e favelas do Brasil amplificam práticas financeiras ancestrais baseadas na solidariedade e coletivizadas, ainda mais, em situações de crise. Não à toa, repetimos como mantra, que nossos corres se realizam diariamente pela força do “nós por nós”. Desde sempre lidamos com cenários de escassez, violação de direitos, exclusão social.


Com o agravamento da crise sanitária da Covid-19, este cenário só piorou, e só conseguimos resistir pela força das nossas redes de apoio e pela criatividade singular da periferia de sobreviver, a ‘sevirologia’, arte ancestral genuína de realizar grandes ações com ou sem dinheiro. Nosso jeito de co-existir e co-habitar as bordas esquecidas das cidades. Esse movimento vem nos fortalecendo ao longo do tempo e nos impulsiona para a mudança social, mas sabemos que podemos ir mais longe, com mais qualidade de vida, com oportunidades reais e acesso descentralizado a recursos e riquezas sociais.


Neste sentido, com entusiasmo e esperança, me joguei junto a Iniciativa PIPA e a uma galera potente de pesquisadores/as de vários territórios do país no desafio de mapear/conhecer importantes iniciativas de base favelada e periférica, gente boa e valente que impacta vidas apenas com boa vontade, pertencimento comunitário e redes de apoio local. Desde então, inaugurou-se um tempo de boas novidades, contexto super favorável à transformação social real das nossas quebradas. Pauta de extrema urgência na ordem do dia para democratizar e descentralizar riquezas. Criar oportunidades e mais acesso a recursos financeiros e filantrópicos.


Desenvolvimento da Pesquisa em co-criação


Compreender a dinâmica da atuação das iniciativas foi o mote. Algumas questões, para identificar os projetos e coletivos foram surgindo, como a socialização dos objetivos da Pesquisa pela coordenação e as trocas de repertório e vivências dos pesquisadores. Cada detalhe da pesquisa foi dialogado e debatido para se chegar às questões chaves. Momento de muita riqueza, pois as diversas percepções e trajetórias deram à pesquisa muita legitimidade, protagonismo e lugar de fala.


Mesmo em tão pouco tempo, todo esse movimento engrenou afetos e compromissos de uma equipe repleta de riqueza, potência e brasilidade em busca da transformação social. E foi neste caminho da parceria que os encontros e desencontros revelaram muita presença e compromisso com os coletivos/organizações Brasil afora e com todo o seu potencial transformador. Não foi fácil e nem simples, mas foi intenso, animador, vitalizante. Uma verdadeira travessia de busca, fé, amor, arte, cidadania, empoderamento. Todes foram incansáveis nesta busca. Todes são importantes nesta empreitada de tornar nossas periferias e favelas o centro do debate filantrópico.


Sabemos que não é tarefa fácil engajar pessoas, mobilizar ações, e com a pesquisa não foi diferente, mesmo sabendo o quanto conscientes e engajados em seus territórios são cada liderança. No meu caso, que puxei a pesquisa em São Paulo, a partir da segunda semana, senti muitas dificuldades na hora de efetivar respostas no formulário, mesmo com contatos pessoais e contatos de redes próximas que participo. Fui percebendo que era necessário fazer mais no momento da abordagem, evoluir o contato para relação e afeto com duração, tipo, ir ao encontro, marcar um café, responder o formulário junto e, depois, com reuniões para tirar dúvidas. Esta ação foi positiva, senti uma adesão melhor finalizada com a resposta, foi lento, mas foi a estratégia que melhor funcionou.


Outros desafios geraram mais dificuldades, como, o processo eleitoral. Muitas lideranças se mobilizaram politicamente e o cenário nacional polarizado e divergente trouxe diversas angústias e desânimo a todes, sem exceção. Ficamos otimistas mesmo com essa constatação, criamos expectativas para o pós 1º turno e seguimos a semana seguinte lutando contra o tempo e os pequenos traumas. E aqui não posso deixar de mencionar a extrema importância que tiveram os encontros de equipe toda segunda-feira. Foi muito emocionante e vitalizador. Cada partilha, cada depoimento singular, foi nos humanizando, e à medida que se ouvia os relatos da jornada de cada um, o apoio mútuo se revelava. Sou grato demais ao universo por tamanho privilégio ter encontrado essas pessoas, cada uma a seu modo, melhorou meu olhar, minha prática, minha energia.


Trabalho em rede: Potencial incidência direta na filantropia brasileira


A Pesquisa em si, revela um mar de soluções e oportunidades possíveis de mudança de paradigma dentro e fora do ecossistema filantrópico brasileiro. Sonhar futuros diferentes pautados no protagonismo e no desenvolvimento das quebradas necessita superar a ordem do dia, seja no debate político da democratização dos recursos, seja na forma de praticar filantropia. Foram 12 pesquisadores representando as cinco regiões do país, isso prova que trabalhar em rede transcende fronteiras e distâncias geográficas e digitais. Dessa forma, garantiu-se a participação descentralizada de mais 600 iniciativas espalhadas pelo país.


É histórico. É genuíno. É potência. Caminhar em rede movimenta mais estruturas, muda realidades e espalha nossos afetos, pois somos a vida criativa que emerge das quebradas, e temos certeza que nossas periferias podem ser mais autônomas e fortalecidas com oportunidades financeiras. Como diz o manifesto da PIPA: Nós somos a realização coletiva!

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