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Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil

Atualizado: 1 de nov. de 2023

Por Carla Ninos - Coordenadora de Comunicação da PIPA


A Iniciativa PIPA, em parceria com o Nubank, realizou em 2022, uma pesquisa de grande impacto e abrangência com o objetivo de analisar a descentralização dos recursos privados para viabilizar as ações e os projetos daqueles que estão na ponta. Os dados da pesquisa apresentam um mapeamento inédito do setor e dá um panorama de uma outra realidade do país.


A pesquisa “Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil” foi construída por mãos de diferentes periferias, e municiará articulações e incidências no campo do investimento social privado e filantrópico. O coordenador executivo da PIPA, Gelson Henrique, explica que o levantamento se fez necessário para entender a relação das periferias com a captação de recursos.


“A pesquisa tem o objetivo de retratar o cenário da filantropia, entender o investimento social privado, quem tem acesso e quais as barreiras e dificuldades impedem o acesso aos recursos. A PIPA quer fomentar uma inteligência coletiva, que impulsionará a transformação na maneira em que o repasse de recursos está colocado hoje no Brasil. Para isso, percebemos que precisávamos de dados para consolidar o debate. Esse é o ponto-chave. Não tínhamos produção de conhecimento com esse viés, por isso, a PIPA entendeu que tinha que fazer essa pesquisa, gerar esses dados e provocar o debate a partir das análises dos resultados”, explica Gelson Henrique.


A pesquisa conseguiu 607 respostas de iniciativas das 5 regiões do país, o que proporcionou a realização de análises profundas no que diz respeito à raça, gênero, classe e condições de trabalho nas iniciativas de periferias.


A Pesquisa


A pesquisa “Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil” é uma importante ferramenta para refletir sobre o investimento social privado e filantrópico no país. Os dados apresentam reflexões sobre os possíveis caminhos que devem ser seguidos para descentralizar e desburocratizar o investimento para ações sociais nas favelas e periferias, além de indicar o que deve mudar nesse cenário e as brechas que se tem para a inovação no terceiro setor.


O principal objetivo é fazer com que os recursos cheguem de maneira efetiva nas periferias e favelas. E isso só acontecerá trazendo as periferias para o centro do debate e da construção da agenda da filantropia do país.


A coordenadora da pesquisa da PIPA, Luana Batista, destaca que esse levantamento é inédito e traz o olhar da periferia com uma abrangência e um número de amostragem nunca visto antes, que alcançou as cinco regiões do país. Para isso, a PIPA criou um time de 12 pesquisadores, com uma metodologia na qual cada um deles atuou no território que representa. Dessa forma, a pesquisa conseguiu acessar os projetos onde a realidade acontece, na base, onde as pessoas estão trabalhando e garantindo a transformação social mesmo com dificuldade de acesso a recursos.


Débora Paixão, pesquisadora PIPA de Pernambuco, relata sua emoção como uma mulher preta e favelada, que constrói sua vivência em coletividade e que sempre participou de projetos sociais e foi impactada por eles. "Foi muito importante participar desta pesquisa, pois acredito que esses dados são inovadores no cenário da filantropia, sobretudo ao apontar para essa análise dos recursos para iniciativas oriundas de favelas e periferias. Foi desafiador fazer esse contato com diversas organizações e ter a oportunidade de conhecer outras vivências e fazer essa mobilização para que a pesquisa pudesse chegar a diversos lugares".


Iniciativa PIPA no estado de Pernambuco. Foto: (Arquivo/PIPA)


“Nós entendemos a periferia não só como as favelas, mas também como os quilombos, as comunidades indígenas, os sertões, tudo aquilo que está fora da grande circulação de capital. E, a partir disso, a gente começa a entender e olhar para aquelas pessoas que estão produzindo diante de muita escassez. Como é que as periferias têm produzido a realidade e a transformação do cotidiano no dia a dia com tão pouco? Essa pesquisa apresenta dados que demonstram esse feito. E a gente pode contar com as vozes de diferentes cantos deste país”, analisa Luana Batista.


A Metodologia e os resultados


A pesquisa conseguiu 607 respostas de iniciativas das 5 regiões do país, o que proporcionou a realização de análises profundas no que diz respeito à raça, gênero, classe e condições de trabalho nas iniciativas de periferias. Os resultados apontam que 74% das pessoas que atuam nos projetos, são pessoas negras e 78% das pessoas beneficiadas pelos projetos, também são. A maior parte populacional do Brasil.


A coleta de dados da pesquisa foi realizada por meio de um formulário on-line distribuído pela PIPA para todas as iniciativas mapeadas no país a partir do contato direto e articulação em rede. Luana Batista aponta os desafios de aplicar a metodologia em um cenário de desigualdade de acesso à internet entre as regiões do Brasil.


“As primeiras dificuldades surgem a partir das particularidades de cada região, como o Norte do país, que apresenta um contexto e um território em que as pessoas enfrentam sérios problemas com o acesso à internet, com a inclusão digital, que é desigual no Brasil como um todo, mas que no Norte é mais acentuado. E nós estávamos aplicando uma pesquisa através do mundo virtual. Por isso, o nosso time de pesquisadores foi muito importante para o sucesso do levantamento das informações. E o resultado final, foi que o Norte e Nordeste foram as regiões em que mais conseguimos respostas para a nossa pesquisa. Esse dado é muito importante, uma vez que mostra a força da construção coletiva”, comemora Luana.


Os dados constatam que há uma centralização de recursos muito grande no eixo Rio-São Paulo. Nas regiões Norte e Nordeste, o investimento chega, mas se concentra nas capitais e não circula nas periferias. As periferias e as iniciativas de pequeno e médio porte têm ainda mais dificuldades de acessar o investimento social privado e filantrópico e são elas que estão produzindo os maiores impactos.


Cerca de 15% dos projetos que responderam à pesquisa não possuem nenhum recurso externo. A pesquisa aponta, ainda, que 31% das organizações vivem com menos de 5 mil reais por ano.


“Nós encontramos iniciativas com menos de 10 pessoas, impactando mais de 500 pessoas e com recursos de menos de 5 mil reais por ano. Essa conta não fecha, essas pessoas estão sobrecarregadas, trabalhando em mais de um emprego, além do projeto, muitas vezes em empregos informais também, para garantir a sua subsistência e a existência desses projetos. Muita coisa que parece banal, coisa do cotidiano como um portfólio, é inconcebível ser cobrado de determinadas iniciativas e comunidades do Norte, principalmente. É preciso repensar o monitoramento, a avaliação, inclusive o entendimento de impacto de confiança. Será que precisa mesmo de vários editais? Será que não pode investir diretamente nestes projetos? Através da pesquisa, temos, hoje, uma lista das iniciativas que existem, que têm um trabalho sério, com muito rigor, que produzem impacto e que precisam de financiamento. A gente só precisa fazer o dinheiro chegar até elas”, afirma a coordenadora da pesquisa.


A pesquisa também aponta que mais de 68% das pessoas que compõem os projetos são mulheres. Como Nilva Borari, do Espaço Wkara Wasú, localizado em Alter do Chão, que fica na cidade de Santarém, no Pará. Ela explica que várias mulheres ceramistas, artistas, artesãs, musicistas, dentre outras, fazem parte dessa coletividade, que através do espaço, fomenta a divulgação e o acesso às artes e culturas indígenas, além de gerar renda para essas mulheres.


"O nosso trabalho é importante porque nos ajuda a fortalecer enquanto mulheres no nosso local, a nos fortalecer financeiramente e, também, fortalecer o empoderamento feminino e a autoestima".


Outro dado relevante é que muitas organizações periféricas brasileiras estão mudando o imaginário sobre suas comunidades através da afirmação positiva de suas existências e tecnologias próprias. É o caso do Fruto de Favela, que surgiu em 2015, na cidade de Paulista (PE), quando Maranguape 1, região periférica, aparecia nas grandes mídias somente associada a um número grande de violência e tráfico de drogas. A partir deste fato, um grupo de jovens resolveu que precisavam mudar a realidade desta periferia e de outras periferias do estado, e pautar a imprensa com notícias positivas.


Daniel Paixão, diretor do Coletivo Fruto de Favela. (Foto: Arquivo/PIPA) )


O diretor do Fruto de Favelas, Daniel Paixão, explica que o projeto desenvolve programas como o Brega Protesto, que une o brega funk e o passinho com letras empoderadoras e de sensibilização sobre as questões sociais. Através desta metodologia que une a informação, a música e a comunicação, eles passaram a transformar a imagem das periferias. “A gente acredita que se os recursos forem investidos de maneira mais democrática, as organizações que constroem impacto na ponta, conseguirão ter um maior fortalecimento para conseguir transformar as vidas no nordeste”, comentou Daniel.


Segundo Luana Batista, a pesquisa é importante e inovadora, pois mostra um cenário, um mapeamento de diversas iniciativas espalhadas pelas mais diversas periferias brasileiras, que estão transformando a realidade do país e que contribuem para o projeto de economia local e nacional. “Nós precisamos olhar para essas pessoas e entendê-las como parceiras de construção de uma nação e o mundo precisa saber o que essa galera está fazendo. A periferia não é lugar de violência, não é lugar de tráfico, muito pelo contrário. Esses projetos mostram como que eles podem transformar essa visão das periferias, ajudar a ver a periferia como um lugar de ciência, de transformação, de potencialidades, de tecnologia social e lugar de parceria, de gente que está construindo a realidade com as próprias mãos e deixando este país de pé todos os dias”, conclui a coordenadora da pesquisa PIPA.


 

Iniciativa PIPA


A PIPA surge da urgência em proporcionar o acesso de coletivos e organizações faveladas e periféricas ao investimento social privado e filantrópico no Brasil.

A PIPA quer construir um mundo em que os recursos filantrópicos e privados sejam acessíveis de maneira ampla e equitativa em termos de raça, gênero e classe.

A PIPA acredita que impulsionar territórios periféricos e favelados é colocar para voar juntas uma série de diversidades que atravessam e constroem realidades potentes, mas extremamente desiguais.

A PIPA acredita na justiça social!





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