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Marcelle Decothé: racismo ambiental, financiamento e o papel da filantropia

Nos últimos anos, o planeta registra eventos climáticos mais extremos, em decorrência das mudanças climáticas. Mas, diante de toda discussão científica acerca do tema, queremos desenrolar um ponto: Como conectar o financiamento climático com as organizações de periferias, que são as primeiras a responder na linha de frente dessas tragédias?



Crédito da imagem: Nayani Teixeira


O cotidiano das periferias é conviver com o aprofundamento das desigualdades, com a falta de água e esgoto, insegurança alimentar, insegurança jurídica e estrutura precária para sustentar vidas. Agora, imagina ter que lidar com os extremos climáticos, onde pessoas morrem em enchentes, queimadas, secas, famílias perdem casas em áreas de risco, nas margens de rios, represas e córregos, vales e encostas.


É sobre isso que estamos falando quando apontamos o racismo ambiental nos territórios, favelas e periferias. No Brasil, 56% da população é negra, segundo dados do IBGE (2020). 

A pesquisa da Iniciativa PIPA, Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil (2022), aponta que 68% das pessoas que atuam no front dos projetos e organizações de periferia são mulheres, jovens e negras. Essas mulheres atuam em seus territórios para alcançar uma população que também é jovem, negra, periférica e composta por mulheres (76%). Essas organizações chegam a impactar de 50 a 1000 pessoas no território. Os dados apontam, ainda, que a maioria dessas organizações vivem com menos de 5 mil reais por ano. E são essas organizações que fazem o enfrentamento às desigualdades e são as primeiras a responder, em auxílio à população, em momentos de tragédia.


Para entender um pouco melhor o conceito de racismo ambiental, financiamento climático e para onde está indo este recurso e o papel do Investimento Social Privado (ISP) e da filantropia neste cenário de extremos climáticos, a gente amplifica a voz da Marcelle Decothé , diretora de sustentabilidade e estratégias da Iniciativa PIPA.


Iniciativa Pipa | Tem um estudo realizado por pesquisadores da CPI (Climate Policy Initiative), afiliado à PUC-Rio, que demonstra que no período de 2015 a 2020, a maior parte do financiamento climático para uso da terra no Brasil, foi para agropecuária, seguido pela pecuária, bioenergia e combustíveis e florestas. E já no atual governo, o Fundo Amazônia já é o maior fundo climático a canalizar recursos para o setor de florestas. Como você analisa esse cenário? De que forma a sociedade civil organizada pode pautar a importância do financiamento climático olhar com prioridade para o social?


Marcelle Decothé | A sociedade civil organizada tem um papel muito importante na construção e criação da agenda pública, na sua capacidade de impor e posicionar essa agenda para o debate público para a sociedade de forma geral. 


O seu papel em levantar a necessidade de que, cada vez mais, a gente incida para que o financiamento climático que está posto e, para que os efeitos das mudanças climáticas, seja no campo da adaptação ou no campo da mitigação e, ainda, as perdas e danos; para que esse financiamento consiga não só ser endereçado para as grandes corporações ou grandes organizações lideradas por pessoas, majoritariamente, brancas, no Brasil e no mundo, mas, que seja endereçado, principalmente, para as organizações que estão atuando no enfrentamento às mudanças climáticas na ponta. 


Portanto, a gente precisa cada vez mais que o Brasil e o Sul global tenham um papel preponderante nisso. No Brasil, não só a floresta amazônica, como é colocada globalmente como esse pulmão do mundo; mas, as populações tradicionais que mantêm essa floresta, que mantêm os nossos biomas vivos. 


E para além disso, incluir as populações que estão marginalizadas nas periferias urbanas do Brasil, que também têm trabalhado para mitigar os efeitos da produção cotidiana de desigualdades, cujo responsável é o Estado brasileiro. 


Então, mais do que nunca, nós da sociedade civil, precisamos nos organizar, seja na estratégia narrativa de campanhas que pautem o financiamento climático, seja também, na construção de planos. E nesse sentido, a Iniciativa PIPA é uma organização que tem se posicionado para chamar atenção que existem diversas organizações no Brasil, com capacidade para implementar soluções cotidianas nas suas comunidades e territórios e que precisam de recursos para fazer isso. É isso que a PIPA está construindo e propõe o debate.


Iniciativa Pipa | Nos últimos meses, percebemos a presença constante das notícias avassaladoras do aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos. As fortes chuvas que arrasaram regiões periféricas do Rio de Janeiro, neste mês de janeiro. Bem como em 2023, a Amazônia testemunhou uma seca severa, agravada pelo fogo e desmatamento. Em setembro passado, o Rio Grande do Sul sofreu o impacto de um ciclone extratropical. Não tem como não se falar em racismo ambiental. Explica pra gente porque empregar este termo, não é só correto, mas é urgente?


Marcelle Decothé | O Racismo Ambiental não é um fenômeno novo, ele existe há muito anos. É um conceito que surge na década de 80, dentro da academia, mas é um fenômeno que, principalmente, populações que vivem à margem dos centros urbanos, mas também nos interiores, como nas regiões Norte e Nordeste, sofrem com esse processo de degradação das condições socioambientais que afeta, com uma importante intensidade e devastação, pessoas negras e periféricas, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e pessoas pobres. 


É urgente que a gente evoque este conceito, para deixar explícito que é um processo estrutural e estruturante deste país. O racismo sustenta e molda a sociedade que a gente vive. E no campo socioambiental, o racismo também opera para que todos os efeitos das mudanças climáticas [seja no aumento das chuvas, seja nas secas, na vulnerabilidade das populações que habitam regiões que sofrem com os extremos do clima], para que essas pessoas sejam mais vulnerabilizadas a serem atingidas por esses fenômenos da natureza. 


Logo, é cada vez mais urgente, que a gente empregue, não só na nossa narrativa, o fato da existência do racismo ambiental, mas, principalmente, nas nossas ações políticas, planos de mitigação e combate deste racismo. Então, vamos falar mais das necessidades das cidades terem planos de adaptação climática, que sejam antirracistas e que sejam voltados para atender populações marginalizadas, populações negras, indígenas e quilombolas. 


Esse exercício de se pautar o tema do racismo ambiental, é também, o papel de disputar um outro projeto de sociedade, um outro projeto de país. E a Iniciativa PIPA vem discutindo isso, juntamente com os coletivos e movimentos de favela e periferia, que fazem esse enfrentamento cotidiano. 


A PIPA chama atenção para o racismo ambiental, que existe, não é novo e não é recente. Existem organizações que trabalham no combate a esse racismo, há anos, e necessitam de suporte, tanto da narrativa, mas também financeiro e institucional para que continuem fazendo esse enfrentamento e para que a gente avance rumo a outro projeto de país.


Iniciativa Pipa | Olhando para essas últimas tragédias, percebe-se que quem arca com a responsabilidade de dar uma resposta rápida às vítimas, são as organizações de periferia, que já atuam na linha de frente no cotidiano e em situações emergenciais. Olhando para o campo da filantropia e do ISP, o setor tem um papel importante para combater o racismo ambiental? 


Marcelle Decothé | Sim, é essencial. Aconteceu no Rio de Janeiro agora, mas temos notícias de chuvas em São Paulo, períodos de seca na Bahia, no Norte e Nordeste. Então, como eu falei, o racismo ambiental ocasiona que os efeitos dessas mudanças climáticas afetem de forma mais desigual e profunda as populações marginalizadas. E, obviamente, as organizações que fazem o primeiro enfrentamento são aquelas que estão nos territórios.

Logo, são essas organizações de periferias e favelas que fazem o primeiro movimento de atuação sobre as emergências humanitárias, que são derivadas desses processos de desastres. Portanto, mais do que nunca, essas organizações precisam estar fortalecidas. 


Nós vimos na Pandemia e a pesquisa da PIPA (Periferias e Filantropia - As barreiras de acesso aos recursos no Brasil) apontou que foram as organizações de periferia que atuaram de forma mais rápida no combate ao vírus da Covid-19 e na proteção social às populações. A mesma coisa acontece, quando a gente vê as últimas tragédias provocadas pelas mudanças climáticas, desse modo, o ISP e a filantropia que apoia essas organizações, precisam estar atentos e ter uma estratégia de fortalecimento institucional alinhada, para socorrer essas organizações de forma rápida nesses momentos de tragédia. 


Existe uma única possibilidade de a gente conseguir superar as desigualdades estruturais no Brasil e é a partir do protagonismo dessas pessoas. Deste modo, quando o ISP coloca recursos, ele está também apoiando a superação das desigualdades.


Iniciativa Pipa | É fundamental se fazer um convite à ação, para que o campo da filantropia encampe um movimento de se pensar e criar protocolos e estratégias que façam os recursos chegarem de forma ágil e facilitada para as organizações que estão nas periferias?


Marcelle Decothé | O chamado à ação está colocado e vem das emergências cotidianas. Gradativamente mais a gente observa que esses fenômenos têm se tornado constantes e devastadores. Esses são os efeitos das mudanças climáticas, mas não só, também são consequência do aprofundamento das desigualdades. E o ISP e a filantropia se colocar na frente, é sinalizar para a sociedade que, hoje, quem possui o recurso no Brasil, tem sim, o poder de amplificar ações políticas e vozes que estão fazendo o enfrentamento a tudo isso que a gente está vendo. 


Nós precisamos trabalhar na vontade política desse campo que, historicamente, sempre apoiou essas organizações de periferias, mas que precisa estar, progressivamente mais, alinhados no suporte a essa agenda e, ainda, no como os recursos podem chegar de forma desburocratizada e descentralizada nas periferias. 


Então, há uma necessidade de se fortalecer fundos ágeis que existem no país, fundos que já tem linhas de apoio à organizações da sociedade e movimentos que atuam em territórios que são afetados por essas mudanças. Assim, é necessário que a gente consiga alinhar uma estratégia mais coletiva e acionar, mais e mais, esse campo para responder. Porque não adianta a gente estar fazendo o enfrentamento na favela e na periferia sem suporte e sem apoio, desta forma, nunca será sustentável. Por isso, a gente precisa que a filantropia se coloque na frente. 


Iniciativa Pipa | O que as grandes empresas, fundações e fundos podem fazer para investir em adaptação climática nas periferias e nos territórios?


Marcelle Decothé | A primeira coisa é estar alinhada com a agenda e entender que adaptação climática, no Brasil, precisa do governo, do Estado e de um plano implementado. Mas, a aterrissagem no território, desse grande grupo, é essencial.

 

Existem tecnologias sociais que estão sendo desenvolvidas nas periferias do país, por pessoas negras, indígenas e quilombolas, e essas tecnologias precisam ser levadas em consideração nos planos. 


Para isso, essas populações precisam continuar existindo, precisam ser fortalecidas, ampliadas e capilarizadas para outros territórios. 


Então, o convite para as grandes empresas, filantropia e ao ISP é que mapeiem e invistam em organizações que estão atuando nos territórios e que estão avançando com tecnologias sociais para se preparar e se prevenir para responder às mudanças climáticas.


Nós temos exemplos históricos como os quilombos, os sistemas específicos de agroecologia, tem as favelas que implementam painéis solares de captação de energia, enfim. Existem formas da gente conseguir avançar nessa adaptação climática, de fazer contenção de barrancos, sistemas de avisos de emergências entre comunidades, etc. Portanto, precisamos investir nessas tecnologias e esse é o papel do ISP e da filantropia, construir o pavimento para que a gente avance nesta direção.


Entrevista realizada pela Carla Ninos, coordenadora de comunicação da Iniciativa PIPA


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