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É urgente que se marque posição no campo de uma nova agenda filantrópica no Brasil

Atualizado: 2 de mai.

Por Luana Braga Batista - Coordenação de Pesquisa da PIPA


A Pipa é uma iniciativa pensada para ajudar a democratizar o acesso ao investimento social privado no Brasil. Queremos ser uma ponte efetiva de conexão entre financiadores e coletivos, movimentos e organizações de base favelada e periférica, produzindo diagnósticos, ferramentas e ações para fazer com que esses recursos cheguem às favelas e às periferias brasileiras.


Diante deste incômodo, lançamos a pesquisa “Periferias e Filantropia - As barreiras dos acessos aos recursos”. Um dos pontos que levantamos, é que muitas vezes, esse financiamento fica retido nas grandes organizações. Para elas, é interessante a continuidade da visão de que as periferias são territórios que precisam de ajuda externa, como se os atores sociais que ali constroem as agendas de direitos básicos não fossem capacitados para o gerenciamento de recursos.


Entendemos que não é possível a construção de um mundo com justiça social, racial, climática e construção de bem viver em defesa da democracia, se ele não for construído junto com as periferias. É preciso reconhecer o papel essencial que os movimentos de favelas e periferias, e organizações lideradas por pessoas negras e indígenas responsáveis pela transformação social do país, têm desempenhado.


Os territórios onde essas ações acontecem é importante para entendermos a relação entre elas e as demandas locais. Identificamos que 90% das iniciativas ocorrem em regiões reconhecidas como periferia. Esse dado mostra como a incidência sobre a realidade e a mudança dela vem sendo produzida através das próprias mãos pela população periférica.

Em um contexto mais atual, podemos relembrar como as periferias brasileiras foram incansáveis para também pensar a realização de suas ações com pouco ou nenhum financiamento. Durante o período pandêmico de Covid-19 e diante da crise social, política e econômica que vivemos nos últimos anos, foram esses coletivos e movimentos de base que lideraram a linha de frente para garantir a sobrevivência de todos dentro das periferias.

Logo, é claro, a importância dessas iniciativas para a promoção da cidadania e do desenvolvimento econômico do país. As periferias são potências de tecnologia social que busca transformação, oportunidades e bem viver.


No entanto, os desafios que esses grupos têm no acesso ao investimento social privado no país — que opera a partir de desigualdades estruturais de raça, gênero e classe — é algo que nos preocupa. Como um espaço tão potente e capaz de produzir tamanho impacto é tão desassistido? Por que o dinheiro não chega para quem está atuando na ponta e com quem mais precisa?


Sabemos que organizações sociais, coletivos, redes e movimentos de base, são comuns em territórios de periferia, a comunidade se organiza para realizar um trabalho urgente de impacto social, político e econômico que tem garantido uma série de direitos básicos àqueles que mais precisam.


Como as mulheres também estão em sua composição de diversidade, se somados aos 68%, os dados seriam de 83% de mulheres na linha de frente das ações de transformação social do país.


Outro ponto a ser levantado e desconstruído é o suposto desinteresse em determinadas possibilidades de financiamentos. O não acesso dessas comunidades a financiamentos oriundos de editais, por exemplo, não é, em maioria, por indiferença, mas pela grande burocratização de alguns modelos de editais que acabam por colocar os movimentos de periferia em disputa por financiamentos simbólicos que não são capazes de sustentar todo o projeto e impacto gerado pelas iniciativas.


Um dado que chama muita atenção é que da totalidade de organizações participantes da pesquisa, quase 60% das iniciativas não possuem mais de 10 membros na organização e gestão tanto da própria organização quanto de seus projetos, o que indica a falta de responsáveis, exclusivamente, pela captação de recursos e fortalecimento institucional.


A falta de membros que sejam responsáveis pela busca de financiamentos, pode vir a abalar o gerenciamento cotidiano da organização, pois além dos membros realizarem mais de uma função dentro da organização, indica, ainda que possam ter trabalhos externos às organizações que participam. Segundo a pesquisa, em 89% das organizações, a equipe gestora também exerce atividades externas. O ponto adicional nessa questão é que há, também, situações nas quais os membros tiram desses trabalhos externos o subsídio para determinadas atividades de suas organizações.


Trazendo à luz um recorte importante, que é o de gênero, temos mulheres na linha de frente de 68% das ações. Porém, é imprescindível salientar que, a pergunta era referente a gênero, com opção de outros que foi preenchido por paritários e LGBTQIAP+, mas as iniciativas quiseram frisar também o marcador de sexualidade. Como as mulheres também estão em sua composição de diversidade, se somados aos 68%, os dados seriam de 83% de mulheres na linha de frente das ações de transformação social do país, pois elas também estão presentes na categoria de outros e LGBTQIAP+.


Por fim, vimos que são mulheres que habitam a linha de frente das iniciativas e, ainda, são mulheres negras massivamente que ocupam as posições centrais do desenvolvimento de projetos, cerca de 74%. Sendo assim, podemos afirmar e entender que quando falamos de periferias, estamos falando sobre mulheres negras.


Se mulheres são as principais linhas de frente na gerência e condução de projetos e organizações sociais de base no país e se, como demonstramos, membros do projeto possuem atividades exteriores às iniciativas como fonte de renda, é possível afirmar que as mulheres, sobretudo mulheres negras, estão suportando jornadas de trabalho triplas, seja nas ocupações exteriores, no projeto e no cuidado da casa. As dinâmicas de gênero e raça, uma vez mais, empurram as mulheres à condição de exaustão, mas elas são as maiores responsáveis pela promoção de garantia de direitos básicos e busca de bem viver de acordo com a pesquisa.


O desfecho trazido é a urgência de que marquemos posição no campo de uma nova agenda para a filantropia no Brasil e que trabalhemos para isso!

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